sábado, 19 de agosto de 2017

JOÃO PAULO II - março 2000 Jerusalém

JOÃO PAULO II
excerto do DISCURSO DO SANTO PADRE
NO ENCONTRO INTER-RELIGIOSO NO
PONTIFÍCIO INSTITUTO "NOTRE-DAME"
Quinta-feira, 23 de Março de 2000
Ilustres Representantes Judeus, Cristãos e Muçulmanos!
1. Neste ano no qual se celebra o bimilenário do nascimento de Jesus Cristo, estou deveras
contente por ter podido satisfazer o meu grande desejo de realizar uma viagem aos lugares da
história da salvação. Comove-me profundamente seguir os passos dos inúmeros peregrinos que,
antes de mim, oraram nos lugares santos ligados às intervenções de Deus. Estou consciente de
modo particular do facto que esta terra é santa para os Judeus, os Cristãos e os Muçulmanos.
Para todos nós Jerusalém, como indica o nome, é a "Cidade da Paz". Talvez nenhum outro lugar
transmita o sentido de transcendência e de eleição divina que percebemos nas suas pedras, nos
seus monumentos e no testemunho das três religiões que vivem, uma ao lado da outra, dentro
dos seus muros. Nesta coexistência nem tudo foi ou será fácil. Contudo, devemos encontrar nas
nossas respectivas tradições religiosas a sabedoria e a motivação superior para garantir o triunfo da compreensão recíproca e do respeito cordial. Estamos todos de acordo ao considerar que a religião deve estar centrada de modo autêntico
em Deus e que os nossos primeiros deveres religiosos são a adoração, o louvor e a acção de
graças. O sura inicial do Alcorão afirma: "Louvor a Deus, Senhor do mundo" (Alcorão 1, 1).
Nos cânticos inspirados da Bíblia ouvimos a chamada universal: "Todo o que respira louve a
Javé! Aleluia!" (Sl 150, 6). No Evangelho lemos que, quando Jesus nasceu, os anjos cantaram:
"Glória a Deus nas alturas" (Lc 2, 14). Agora que muitos são tentados a administrar a própria vida sem referência alguma a Deus, a chamada a reconhecer o Criador do universo e o Senhor da
história é essencial para garantir o bem-estar dos indivíduos e o correcto desenvolvimento da
sociedade.
3. Se for autêntica, a devoção a Deus implica necessariamente a atenção para com os outros
seres humanos. Como membros da única família humana e amados filhos de Deus, temos
deveres recíprocos que, como crentes, não podemos ignorar. Um dos primeiros discípulos de
Jesus escreveu: "Se alguém disser: "Eu amo a Deus", mas odiar a seu irmão, é mentiroso, pois
quem não ama a seu irmão, ao qual vê, como pode amar a Deus, que não vê?" (1 Jo 4, 20). Amar
os nossos irmãos e irmãs comporta uma atitude de respeito e de compaixão, gestos de
solidariedade, cooperação no serviço do bem comum. Portanto, a preocupação pela justiça e pela paz não é estranha ao campo da religião, mas é de facto um dos seus elementos essenciais.
5. As crianças e os jovens judeus, cristãos e muçulmanos, presentes aqui, são um sinal de
esperança e um incentivo para todos nós. Cada nova geração é um dom divino ao mundo. Se
lhes transmitirmos tudo aquilo que de nobre e de bom está presente nas nossas tradições, eles
farão com que isto floresça numa mais intensa fraternidade e cooperação.
Se as várias comunidades religiosas na Cidade Santa e na Terra Santa conseguirem viver e
trabalhar juntas na amizade e na harmonia, elas serão de enorme benefício não só para si
mesmas, mas também para a causa da paz nesta região. Jerusalém será verdadeiramente uma
Cidade de Paz para todos os povos. Então repetiremos as palavras do Profeta: "Vinde, subamos
à Montanha do Senhor... Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas
veredas" (Is 2, 3).
Empenhar-nos de novo nessa tarefa e fazê-lo na Cidade Santa de Jerusalém, significa pedir a
Deus que vele sobre os nossos esforços e os leve a bom termo. Deus Omnipotente abençoe com
abundância os nossos esforços comuns!