sexta-feira, 2 de junho de 2017

conferência: O papel e a responsabilidade da mulher em contexto religioso





A conferência/debate O papel e a responsabilidade da mulher em contexto religioso encheu no passado dia 3 de abril, o auditório municipal de Torres Vedras.

Participaram representantes de vários contextos religiosos e da academia.

José Nunes, padre católico, lembrou o apóstolo Paulo para defender que “aos cristãos não interessa a diferença de género ou qualquer outra diferença social”. O também frade dominicano lamenta que, apesar de ter havido mulheres com responsabilidades de liderança nas primeiras comunidades cristãs, esta seja, aparentemente, “uma questão inultrapassável” no catolicismo, pois “as mulheres não têm acesso ao sacerdócio”. O Papa Francisco, recorde-se, já admitiu que esta porta foi fechada por João Paulo II.

Isaura Feiteira, católica ligada à ação social e membro do Graal, movimento de mulheres cristãs, entende que “o importante é haver bons discípulos e boas discípulas”. Feiteira citou o pensamento de Maria de Lurdes Pintasilgo para defender que mais importante que a ordenação “é a possibilidade de as mulheres católicas participarem, em igualdade, nas tomadas de decisão”.

Brissos-Lino, pastor protestante e professor de Psicologia da Religião, defende a existência de “diferenças na especificidade” entre homens e mulheres, mas também que “não há impedimentos teológicos para que as mulheres não desempenhem qualquer papel na Igreja”. Persiste “uma hermenêutica à martelada” que subalterniza a mulher em Igreja, acusou Brissos-Lino.

O debate foi mais aceso quando o imã da Mesquita Central de Lisboa foi interpelado sobre o papel das mulheres na cultura muçulmana. O Xeque David Munir esclareceu que o Islão define responsabilidades consoante o género, “mas isso não quer dizer que o homem seja mais do que a mulher”. Na ausência do imã, exemplificou Munir, “uma mulher pode orientar a oração na Mesquita, pelo que adquirir conhecimento é obrigatório para homens e mulheres”. O problema não é o Alcorão, acrescentou, mas “o cruzamento da cultura patriarcal com o Islão”.

Filomena Barros, professora de História do Islão, advogou que o papel das mulheres, sobretudo no Islão, é o de “desconstruir a história”. Há no Alcorão passagens que “podem dar a ideia de subjugação da mulher em relação ao homem, como o contrário”, advertiu a historiadora, que recorda a intervenção de muitas mulheres muçulmanas na emancipação.

“Nada pior do que fossilizar uma ideia [religiosa] e impor uma leitura estagnada”, atitude que tem levado a uma “escravocracia da mulher”, acrescentou António Faria. O professor de filosofias orientais sugeriu, por isso, que se invertesse o tema do debate para “o papel e a responsabilidade dos contextos religiosos no feminino”.

Cabe à Ciência das Religiões “construir conhecimento e reflexão sobre o género em contexto religioso”, lembrou Mariana Vital. A investigadora de Ciência das Religiões recordou que há novas religiosidades que “desenham mais equidade entre géneros”.

Questionado sobre a possibilidade de concelebrar com uma mulher, o padre José Nunes lembrou a sua participação na ordenação de uma amiga pastora protestante, onde se sentiu “mais à vontade em oração, do que em muitas igrejas católicas”. Nunes é “a favor da ordenação de mulheres”, mas defende uma mudança mais profunda, pois “mudar a lei, pode apenas desencadear uma luta pelo poder”, de caráter sexista, pelo que a “igualdade deve ser construída na escola para que quem tenha capacidades para um serviço as assuma e a sociedade reconheça” sem quaisquer preconceitos de género.

Na opinião da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, o problema é mesmo o do poder, que “deve ser exercido por quem quer fazer esse percurso e tem condições para lá chegar, em pé de igualdade”. Catarina Marcelino questionou: “Porque é que as mulheres não podem exercer o poder da Palavra e da liderança na Igreja?”

A católica Isaura Feiteira, embora pertencendo a um movimento feminista, esclareceu que não se sente “incomodada por não poder ser ordenada, mas sim pelo facto de as mulheres não terem acesso às tomadas de decisão mais importantes na Igreja”.

No final, a governante confessou que “foi dos debates mais interessantes” a que assistiu nos últimos anos, concluindo que, “quando se fala de Cidadania tem de se falar de Religião”.

Joaquim Franco moderou o debate e revelou que o tema - O papel e a responsabilidade da mulher em contexto religioso - era uma provocação. O coordenador do Observatório para a Liberdade Religiosa (OLR), explicou que a definição de um papel pode ser vista como “segregação”, como a ideia de responsabilidade pode ser interpretada como uma “limitação”, pelo que a opção foi propositada para provocar o debate. “É no debate e pelo debate que a ferramenta do diálogo – também entre diferentes contextos religiosos, espirituais ou de consciência – é colocada à prova, para alargar as possibilidades de encontro e promover o conhecimento mútuo”, disse.

Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, salientou nas conclusões a importância de levar estes assuntos à escola e aos meios de educação não-formal, como “instrumento fundamental para uma Cidadania ativa e construtiva”. Esta tem sido, lembrou, “uma das prioridades” da área de Ciência das Religiões da ULHT.

Foi o segundo debate do Roteiro para o Diálogo Inter-religioso e Cultural, organizado pela área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, com o OLR, promovido pela Karingana wa Karingana, num projecto apoiado pelo gabinete da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade. A iniciativa tem percorrido o país em paralelo com o Roteiro Cidadania em Portugal, organizado pela Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local, em parceria com o gabinete da SECI.

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