quinta-feira, 11 de maio de 2017

Peregrinos



Peregrinos

ABRIL 2017

Ana Catarina André e Sara Capelo

Todos conhecemos alguém que foi a Fátima a pé. Nas televisões, as imagens mostram milhares de peregrinos reunidos na Cova da Iria, em Fátima. Mas, entre a multidão imensa, quem são eles ao certo, todos e cada um? Quem é João, que caminha descalço pela saúde do filho? Ou quem é Marleen, que quer fazer as pazes consigo própria, dividida entre a fé católica e uma interrupção de gravidez? As histórias de quem agradece uma dádiva ou pede pelos que ama. O rosto dos 'Peregrinos'.


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exemplos:

O testemunho de um peregrino de Fátima link :  O que procuram os peregrinos quando se dirigem ao Santuário de Fátima? Escutemos um exemplo concreto, que é representativo do que melhor se pode desejar alcançar com uma peregrinação, em termos existencial e espiritual.
António Pinto Leite, advogado e politico, numa fase de procura espiritual,  escreveu num grande semanário nacional, de 4 de Maio de 1991, o artigo “Vou a Fátima”, de que transcrevo a parte que se segue:
“Olho para o mundo e para os outros, para o futuro e para mim, e acho prudente proteger-me e aos que cativo com a necessidade de absoluto. Como julgo impudico esperar pela sensação da morte para procurar Deus, confio o meu coração aos seus próprios riscos. Por isso vou a Fátima, numa confusão de sentimentos unidos pela minha determinação,
Vou a Fátima simplesmente porque sinto necessidade de ir e não quero aprisionar esse sentimento livre em nenhuma infatigável introspecção. Vou a Fátima porque o tempo e a razão me cercam: a esperança quer dar o lugar, parece que por sensatez, à ausência de expectativas relativamente aos outros, e eu quero resistir até o fim e merecer que outros resistam por minha causa. Vou a Fátima porque me inquieta um mundo sem espiritualidade e não quero deixar apenas às gerações futuras os rios e os mares limpos e as florestas e o lince da Malcata intactos, mas também o essencial do Homem, a alma, a sua secreta grandeza, aquilo que o distingue diante do mistério da vida e aquilo que nenhum electrodoméstico, ou automóvel, ou taxa de juro, ou cartão jovem consegue iludir.
Vou a Fátima porque mesmo que Deus não exista é verdade o que se diz em seu nome, e posso regressar sem Deus, mas regresso sempre mais próximo dos outros homens. Vou a Fátima porque quem vive da memoria da fé tem uma ilusão: encontrar numa noite fria, numa multidão acreditando, no silêncio profundo dos cânticos e numa solidão corajosa, o que não encontrou nos milhares de páginas meditadas sobre a nossa natureza e o nosso destino. Vou a Fátima porque leio nos olhos do mundo e nos olhos do poder a mais perigosa ausência de fé: a falta de fé nos homens. Fé na sua generosidade e não só na sua gratidão; fé na sua capacidade de se transcender e não só na sua índole de competir; fé na sua liberdade interior e não só na sua liberdade de escolha; fé na sua ansiedade de ser e não só na sua vontade de ter; fé no seu sonho de se entregar e não só no seu talento para se organizar e se facilitar. (...)
Vou a Fátima simplesmente. A fé faz-me falta, Deus faz-me falta. Escrevo-o humildemente.” (A. PINTO LEITE, Qual é o mal?, S. João do Estoril 2002, p. 38-39).
Cinco anos depois, quando já reencontrara a fé cristã, graças ao “mistério de Fátima” e ao testemunho dos pastorinhos, em novo artigo para o mesmo jornal, publicado a 4 de Maio de 1996, o autor escreve:
“Na semana que aí vem, irei a Fátima, a pé. Pisar o silêncio que não tenho na vida de todos os dias, para conseguir falar com Deus e não apenas comigo próprio, como nos acontece quase sempre. Parar o tempo, para ter tempo, ser ninguém para me sentir alguém, caminhar misteriosamente para perceber o sentido deste absurdo que é existir. Juntar a liberdade e a solidão e submeter-lhes a minha imperfeição. Confiar na humildade e na esperança e pôr-me à disposição da aventura que quiserem. E rezar, essa palavra que as décadas baniram, que eu bani durante tantos anos. Rezar, simplesmente rezar.” (A. PINTO LEITE, Qual é o mal?, S. João do Estoril 2002, p. 52).

Pazes feitas com Deus
Margarida Reis, 38 anos, gestora de marketing
O robusto cajado de madeira que a ampara no caminho e a ajuda a suportar as dores da ciática, que vêm e vão, foi-lhe oferecido pelo grupo de peregrinos que a acompanha desde Santarém. Não conhecia ninguém antes de se pôr ao caminho. Foi o padre da sua paróquia de Oeiras que organizou esta peregrinação entre escuteiros e fiéis. E Margarida decidiu juntar-se a eles. Para fazer as pazes com Deus.
Durante três dias e mais de 60 quilómetros a palmilhar campo e estrada, teve de se despojar de todo o conforto com que vive no dia a dia. Nunca tinha andado tanto na vida. Não se recorda de estar tanto tempo trajada com fato de treino e ténis, sem jóias ou maquilhagem. Nunca dividira a casa de banho com ninguém, muito menos experimentara alguma vez tomar duche junto de dez outras mulheres. Mas fê-lo. Nunca lhe passou pela cabeça que um dia dormiria no chão de uma garagem de bombeiros, com o corpo esticado num rectângulo de espuma, literalmente encostado às cabeças e aos pés de dezenas de peregrinos.
«Pensei em trazer o cartão de crédito, mas se o trouxesse não resistia e caía em tentação.» Apesar do esforço nunca pensou desistir. Há dois anos repetiu que Deus não existe. Não pode existir. Desde que a irmã mais velha morreu no final de uma gravidez, com uma septicemia, a sua fé desmoronou-se. «Mas é impossível viver sem acreditar em Deus.» link.

 
Editor: Oficina do Livro

A autora foi a Fátima 4 vezes a pé.
"Pensei em pedir um testemunho sobre peregrinação a crentes e não crentes. Pessoas públicas de várias gerações, de posições e alinhamentos políticos possivelmente opostos. Eu previa atividades e profissões muito diferentes, mas quase todos são da cultura, da comunicação, da criatividade.

Ao longo do trabalho, tive sempre o cuidado de manter um número igual de homens e mulheres, pedindo-lhes que me confiassem o seu testemunho. Acreditei que, nas tantas diferenças de ânimos e crenças, modos e falas, poderiam ser meus cúmplices.

São 70 testemunhos (porque foi 70 vezes que Jesus disse que devíamos perdoar) de pessoas desde o Pedro Abronhosa, ana gomes, joão tordo, lidia jorge e joão canijo, dalila carmo.lia gama,vitorino,  cuca roseta, maria joão seixas, etc.