segunda-feira, 8 de maio de 2017

entrevista do Bispo de Fátima no centenário



excerto do artigo do jornalista  João Francisco Gomes:


D. António Marto foi cético de Fátima e da religiosidade popular, recusando rezar o terço com a família, mas a simplicidade do pai levou-o à conversão. Uma rara entrevista de vida ao bispo de Fátima.

Quando terminou o curso de teologia e se tornou padre, António Marto regressou de Roma transformado num “racionalista” e estava longe de imaginar que se viria a tornar bispo de Fátima, um fenómeno de “piedade popular” que olhava com indiferença e desdém. Com um doutoramento em teologia no currículo, fazia parte daquilo que hoje admite ser “uma espécie de cultura de elites, que olha com desprezo para o que é do povo”. Em casa, já padre, recusava rezar o terço com a família, criticava as procissões e as peregrinações e desvalorizava todas as expressões populares da fé, o que ofendia profundamente o seu pai.

Foi precisamente o pai, um homem simples e sem estudos que preferia um filho militar a um padre, que lhe abriu os olhos quando, um dia, se quis confessar ao seu próprio filho. Na confissão do pai, António Marto descobriu a “autenticidade da fé simples daquele homem” que não tinha até ali. E converteu-se. Mais tarde, veio a conversão ao próprio fenómeno de Fátima, depois de ler três vezes as Memórias da Irmã Lúcia e ter ficado “impressionado pela seriedade do que tratava a mensagem”. Hoje, é o bispo da diocese de Leiria-Fátima e vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
O bispo recebeu o Observador na sua casa em Leiria, onde está a Sé da sua diocese, a uma semana da chegada do papa Francisco ao Santuário de Fátima. Admite os nervos com a proximidade da visita, mas a verdade é que esta não será a primeira vez que D. António Marto é anfitrião de um Papa. Em 2010, recebeu Bento XVI no mesmo local e ouviu, perplexo, Ratzinger dizer-lhe que “não há nada como Fátima em toda a Igreja Católica no mundo”.


E a conversão a Fátima, como aconteceu?
Tudo isto, quando depois vemos o fio à meada, as coisas vão levando até certo ponto, até que um dia sou surpreendido com um convite do santuário para vir fazer uma conferência a um congresso a Fátima, em 1997, sobre a Eucaristia na Mensagem de Fátima.
O que é que pensou quando o convidaram?
Eu pensei: “Bom, olha, aceito o desafio”. Alguns deles, contaram-me depois, estavam à espera que eu não aceitasse. “Ele não vai aceitar, porque ele não liga a estas coisas”. Mas não sei porquê, pensei em aceitar o desafio. Então, por honestidade intelectual, comecei por ler as Memórias da Irmã Lúcia, pela primeira vez, e fiquei de facto impressionado. Impressionado pela seriedade do que tratava a mensagem, que era a grande causa da paz e da humanidade ameaçada na sua sobrevivência por duas guerras mundiais que aconteciam pela primeira vez, era relativamente à Igreja perseguida, a Igreja dos mártires, e enfim, relativamente à questão do ateísmo, da perda do sentido de Deus e da divisão entre os homens. Depois, a autenticidade com que é dado o testemunho, e a humildade de quem recebeu uma mensagem e diz: “Não nos compete a nós interpretá-la, confiamos à Igreja, a Igreja que interprete”. E isso convenceu-me. Pensei que estávamos ali diante de algo muito sério, muito mais sério do que eu imaginava.
Achava que era uma coisa mais para crianças.
Sim, isso era o que eu pensava antes, porque tinha recebido essa imagem desde criança. Afinal, não é para crianças. Foi recebido por crianças que tinham ainda a sua mente e o seu coração limpos e puros para poderem transmitir uma mensagem que lhes foi confiada e que eles não entenderam tudo à primeira. Eram crianças… De certeza absoluta, muita coisa não sabiam. Transmitiram-na e transmitiram-na à Igreja. Depois, havia outra coisa. Era necessário encontrar as chaves hermenêuticas, as chaves de compreensão e de interpretação desta mensagem, porque ela é transmitida numa linguagem, em conceitos próprios da época de há cem anos, e numa linguagem infantil também. De outra maneira, como é que as crianças compreenderiam e reteriam, até, na sua memória, isso? Então propus-me, já que estávamos diante de uma coisa séria, tratá-la seriamente. E li as Memórias por três vezes, para encontrar essas chaves de compreensão, de interpretação, que são aplicáveis à mensagem como também nós aplicamos aos textos da Sagrada Escritura, como também aplicamos aos textos do Magistério. Por vezes foi interpretada muito literalmente.
Como foi atravessar o “seu” santuário dentro do papamóvel ao lado do Papa?
É um espetáculo, é um espetáculo! Ir junto do Papa e de vez em quando dizer ao Santo Padre, porque ele às vezes olhava só para um lado para saudar, e eu dizia-lhe “ó Santo Padre, neste lado também está gente”. E depois, sobretudo, ouvir dizer-lhe isto, esta frase que nunca esqueci e depois escrevi para ficar para a história. Quando ele, no final da procissão das velas, ao regressar à Casa do Carmo, sem eu perguntar nada, muito espontaneamente, diz-me, em alemão: “Não há nada como Fátima em toda a Igreja Católica no mundo”. Eu não estava a contar com uma exclamação destas, fiquei quase sem fala, sem saber o que dizer. Apenas disse: “O Santo Padre conhece melhor a Igreja em todo o mundo do que eu e sabe certamente as razões por que diz isso”. Ele conhecia bem Fátima, já tinha estado como cardeal aqui, e depois foi aquele que fez o melhor comentário teológico até hoje ao chamado Segredo de Fátima, à mensagem, que no fundo encerra os conteúdos principais da mensagem de Fátima.
Desde que se converteu a Fátima que tinha devoção aos pastorinhos?
Se me perguntar o que me tocou mais da vida dos pastorinhos, foi o que disse Francisco. “Eu gostei muito de ver o anjo, gostei mais de ver Nossa Senhora, mas do que gostei mais foi de ver Deus naquela luz que Nossa Senhora nos metia no peito, e que ardia sem queimar. Gosto tanto de Deus”. Primeiro, fiquei logo a pensar que uma criança diz aquilo que nós em teologia usamos como “palavrão”, a chamada hierarquia das verdades. Nem tudo está no mesmo nível. Em primeiro lugar Deus. Depois, o encanto, o fascínio por Deus, pela sua beleza, do seu amor e da sua santidade. Quando eu li aquilo pensei que não era capaz de o dizer como ele. Era o tal racionalismo. Acredito aqui na cabeça, muito bem, mas depois da cabeça ao coração é a distância maior. Parece tão próximo, mas primeiro que nos desçam os grandes valores, as grandes ideais, as grandes convicções da fé ao coração, leva muito tempo.