sexta-feira, 12 de maio de 2017

“É uma fé que nós cá temos!”


não faz sentido discutir a fé que sentimos bem fundo no nosso coração, nós que somos filhos ou mães, digo eu. Uma peregrina diz: "Fátima é um canto do céu.Quando estamos aqui, não nos lembramos de mais nada." in Jornal de noticias, 13\5\2017 , onde também se encontra este bom editorial


Os segredos de Francisco


"Nunca como hoje a mensagem do Papa fez tanto sentido para o Mundo. Um mundo, como o próprio Francisco já o disse, a descoser-se ante os nossos olhos, a caminhar para uma guerra mundial de consequências imprevisíveis. Fome. Refugiados. Desigualdades. A eclosão de conflitos movidos pela ânsia do homem de fazer mal. Não é dramatismo. Ou puerilidade do discurso. É muito para lá daquilo que nos assalta no correr dos dias, a pingar nas redes sociais.
As dimensões da presença de Francisco em Portugal ultrapassam a fé. E não importa aqui se se é devoto de Nossa Senhora de Fátima. Católico. Ateu. Agnóstico. Muçulmano ou hindu. Fé, pregava Santo Agostinho, é acreditar no que não se vê. Tenha essa fé uma dimensão de desespero num momento de queda na vida, seja ela um instante de iluminação contagiante, ou um apelo da racionalidade da ciência.
O Santuário de Fátima, na imensidão do seu silêncio contemplativo, transporta-nos para esses olhares sobre a vida. E esse é um dos seus segredos. Carregar a dor e o sofrimento de milhares de pessoas, crianças, velhos, novos, doentes, ricos e falidos, prostradas ante o desconhecimento daquilo que entendem, ou não entendem, ser as estranhas leis de Deus.
Francisco tem sabido, talvez melhor do que qualquer outro papa, interpretar a simplicidade da relação das mulheres e dos homens com a fé. E o discurso protetor e desafiador dos males do Mundo, da ecologia aos diferentes tipos de fanatismo, da sedução da posse à sedição da pobreza, dos afãs da sociedade moderna à proteção do conceito da família, da moralização da própria Igreja ao apelo à moral dos líderes políticos, é sempre cristalino e fácil.
É esse olhar despido e cru que lhe atrai inimigos entre os príncipes da Igreja. Que o arrasta para as análises de engajamento político. Se é de esquerda ou de direita. Ou do centro. Como se o discurso da desigualdade social não pudesse, ou não devesse, ser transversal às ideologias.
Saber ler e ouvir o Papa ultrapassa a relação de cada um com a fé ou o próprio catolicismo. A mensagem do peregrino Francisco, o homem que não quer homens armados a protegê-lo, é única e especial. Mais a mais em Fátima. Não sendo ele um mariano, é na relevância da palavra e dos gestos que encontramos o homem. E o Mundo precisa cada vez mais de homens simples que lutem por ele."


Papa em Fátima
“É uma fé que nós cá temos!”
Helena Matos 12/5/2017, 9:51
"Dos sentimentos contraditórios gerados pelos excessos de que o povo que se dizia católico era capaz em Fátima versus a indiferença que manifestava face à igreja dão bem conta as palavras que Lúcia regista nas suas memórias como tendo sido proferidas pelo padre Manuel Marques Ferreira, pároco em Fátima à data das aparições: “Para que vai essa quantidade de gente prostrar-se em oração em um descampado, enquanto que o Deus vivo, o Deus dos nossos altares permanece solitário, abandonado no tabernáculo? Para quê esse dinheiro que deixam ficar, sem fim algum, debaixo dessa carrasqueira enquanto que a igreja em obras não há maneira de se acabar, por falta de meios?”

"Perceber Fátima implica entrar num universo de contradições em que o mesmo povo que deixava e deixa vazias as igrejas daquele que diz ser o seu Deus percorre quilómetros para ir ajoelhar num local onde nem sequer todos os que ali acorrem e rezam acreditam que tiveram lugar as aparições.
Ao contrário do que acontece com a procissão das velas, a procissão do adeus não foi importada doutros santuários marianos. Terá sido em 1925 que se assinalou pela primeira vez a realização da procissão do adeus: nesse ano, 1925, a missa da peregrinação de 13 de Maio começara a celebrar-se no pavilhão dos doentes, o que obrigou a que a imagem viesse da capelinha das aparições até esse pavilhão e que depois de terminada a missa a imagem regressasse à capela. Foi então que se viram a ser agitados os lenços brancos – esses lenços que os portugueses voltaram a tirar do bolso quando à beira do Tejo viam os barcos partir com soldados para a guerra – enquanto a imagem fazia esse percurso. Rapidamente se passa a falar de procissão do adeus. E do adeus ficou até hoje, crescendo na sua emotividade e nas suas possíveis interpretações: marca de religiosidade popular e símbolo de um país que nesse comovido adeus celebra também esse modo de ser e de sobreviver que se chama saudade."

"Discutir a fé faz tanto sentido quando discutir a Arte: faz parte das sociedades humanas. E a “fé que nós cá temos!”, essa fé que criou Fátima, faz parte da sociedade portuguesa."